quinta-feira, abril 17, 2008

Festcine Amazônia - Cinema sem Fronteiras

Ótima matéria realizada sobre o desafio e a luta destes batalhadores em defesa de nossa cultura. A reportagem foi feita pelo jornalista Ismael Machado para o Diário do Pará.
Veja a matéria.
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Passa pouco das 19h quando a van que transporta aproximadamente 15 pessoas atola numa área invadida pela cheia do rio Beni, a menos de 100 metros do local onde a balsa espera para a travessia. É só depois de meia hora que o veículo consegue ser retirado, embarcado na balsa e seguir viagem pelas estradas bolivianas.

A situação, que mais parece ter saído de um rally, tem sido comum para a equipe do Festcine Amazônia Itinerante, um projeto que ampliou o festival de cinema ambiental, existente há cinco anos em Porto Velho. A idéia agora é levar os vídeos e filmes a comunidades ribeirinhas e pequenos municípios de Rondônia, passar por todas as capitais da região Norte e atravessar fronteiras, indo a Bolívia, Peru, Colômbia e Portugal.
No próximo dia 29, a equipe rondoniense chega a Belém. Na aventura itinerante, a primeira escala foi no chamado Baixo Madeira, ao longo do maior afluente à esquerda do rio Amazonas, no barco "Deus é amor". Durante uma semana a equipe percorreu comunidades ribeirinhas exibindo filmes nos distritos de São Carlos, Nazaré, Calama e Demarcação. São comunidades pobres, com uma população que jamais havia ido ao cinema. Em alguns locais, nem energia elétrica havia.

Jurandir Costa

"A gente pôde presenciar, registrar e sentir na pele os problemas que os ribeirinhos enfrentam todos os anos como `a cheia' que para eles é natural, e o conseqüente aumento nos problemas de saúde dos moradores destas comunidades por causa da cheia do Rio Madeira", diz Jurandir Costa, um dos coordenadores do Festcine. Videomaker e documentarista há mais de 10 anos, Jurandir é um cearense apaixonado por Rondônia. Ao lado de Carlos Levy e Fernanda Kopanakis, idealizou o festival, que já entrou para o calendário cultural de Porto Velho.

Em Demarcação, choveu durante todo o dia. Mas no momento da exibição dos filmes a lua saiu. O resultado foi praticamente quase toda a população do distrito assistindo aos filmes. Cerca de duas mil pessoas marcaram presença nos quatro distritos. Em todos os locais estão sendo colhidos depoimentos e feitas imagens das comunidades. O material gravado fará parte de um documentário que está sendo produzindo sobre o projeto.

A equipe do Festcine Amazônia prepara um documentário sobre o cinema itinerante

Em Guajará-Mirim, fronteira Brasil-Bolívia, o documentário dinamarquês A Ferrovia do Diabo foi uma das atrações mais aguardadas pelo público do município. Isso porque a história da estrada de ferro está diretamente ligada à estrada de ferro Madeira-Mamoré construída entre 1907 e 1912 para ligar Porto Velho a Guajará-Mirim, no atual estado de Rondônia. "Ficou conhecida à época como a `Ferrovia do Diabo' devido às milhares de mortes de trabalhadores ocorridas durante a sua construção motivadas por doenças tropicais. Reza a lenda que cada um de seus dormentes existia um cadáver", diz Carlos Levy.

Carlos Levy

A Ferrovia foi construída para facilitar o transporte de borracha. Em agosto de 1907 a ferrovia foi encampada pelo megaempresário estadunidense Percival Farquhar. O último trecho da ferrovia foi finalmente inaugurado em 30 de abril de 1912, ocasião em que se registrou a chegada da primeira composição à cidade de Guajará-Mirim, fundada nessa mesma data. Já do outro lado da fronteira, a equipe enfrentou diversos contratempos. Cheias de rio, barreiras policiais e estradas de terra foram comuns. Em Guayaramerin, primeira parada, foram exibidas produções brasileiras com legendas em espanhol no Palácio Del La Cultura.


Fernanda Kopanakis


Fernanda Kopanakis
"Esta ação cultural é uma tentativa de aproximação das culturas brasileira e boliviana. Poderíamos manter mais contatos com nossos irmãos bolivianos, pois esta integração é necessária para ajudar a encontrar soluções e resolver nossos problemas de fronteira", disse Fernanda Kopanakis.

No dia 6 de abril, um domingo, a equipe chegou até Cachuela Esperanza, eleita patrimônio mundial da humanidade. É uma cidade construída para atender aos anseios do empresário Nicolas Suarez, produtor de borracha e que foi um dos homens mais poderosos da história recente boliviana. Atualmente a cidade vive mais das lembranças de seu passado e enfrenta dificuldades para sobreviver.

O Festcine Amazônia Itinerante encerrou essa parte da jornada de exibição cinematográfica no município de Riberalta, importante cidade que faz parte da Província do Beni, distante quase 100 km da fronteira com o Brasil, a exibição aconteceu no dia 7 de abril no Coliseu Adela Sonhenschein.

Prefeito de Riberalta recebe os organizadores do Festcine Amazônia Itinerante

O Festcine Amazônia Itinerante conta com o patrocínio do Ministério da Cultura/Fundo Nacional de Cultura, Petrobras através da Lei Rouanet, tem ainda o apoio da senadora Fátima Cleide, deputado federal Eduardo Valverde, IBM, Unir, Secel e Prefeitura de Porto Velho.
Fonte: Diário do Pará
Autor: Ismael Machado
Fotos: Bethoven Delano

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